Antes de começar o post, um aviso: este é um post longo e que, aparentemente, desvia do blog em si. Mas também aviso que esta é uma introdução à segunda parte, que – aí sim – estará dentro da lógica que rege este blog.
Vamos ao post em si.
Grosso modo, na computação pessoal moderna – incluindo desktops, notebooks, tablets e smartphones – existem atualmente três ecossistemas: Apple (iOS e MacOS), Google (Android e Chrome OS) e Microsoft (Windows/Windows RT e Windows Phone).
Por causa disso, os anúncios do Microsoft Surface (hands-on) e do Windows Phone 8 criaram, compreensivelmente, um terremoto no mercado. E o grande resultado pode ser a quebra da confiança entre a Microsoft e seus OEMs.
Há pouco mais de 25 anos atrás, com o fracasso do IBM PS/2 e depois com a separação entre IBM e Microsoft, surgiu um poderoso arranjo, em que a Microsoft fornecia o software e uma legião de OEMs, primeiramente em Taiwan, entrava com o hardware; a combinação gerou uma força competitiva irresistível, que eliminou a concorrência (Atari ST/TT, Commodore/Amiga, workstations Unix, Macintosh PowerPC), se transformou no padrão da computação até 2010-2011 e inspirou o Google a fazer algo muito parecido com o Android – mesmo com a família Nexus, que se tornou mais uma maneira de premiar OEMs e garantir equipamentos para os desenvolvedores.
(Imagino, aliás, que não foi por acaso que o Google reforçou que não vai absorver a Motorola.)
Pressionada pelo computador-como-appliance do pós-PC jobsiano e o arranjo 2.0 do pós-PC googler, a Microsoft, esta semana, foi desfazer o arranjo:
- lançou seu próprio tablet, sem marca de nenhum OEM, ao contrário do que o Google faz com a família Nexus.
- acabou com o mercado em torno do Windows Phone 7, abrindo caminho para a inevitável compra da Nokia, uma empresa na UTI que não pode se dar ao luxo de passar pelo menos quatro meses sem vender nada.
Não que a Microsoft seja estranha ao mundo do hardware – desde o Softcard para Apple II até o Xbox 360, passando por mouses, teclados, Zune e Kim, a empresa de Gates e Allen tem uma longa história em hardware. Também devemos lembrar que a Microsoft deixou uma série de perguntas no ar sobre o Surface. No entanto, tanto o Surface quanto o WP 8 levou a indústria a um estado de desconforto, ou no caso da Acer de pura e simples negação.
Óbvio que os grandes OEMs (HP, Dell) podem tomar o caminho da IBM e abandonarem o mercado consumidor à própria sorte, e se precisavam de algum estímulo não precisam mais, e que os OEMs conglomerados (Sony, Samsung, LG) podem continuar porque não dependem só disso, mas e a massa de OEMs, que depende do mercado criado por Intel e Microsoft?
É o caldo de cultura perfeito para o surgimento de um quarto ecossistema.
Magicamente, abriu-se a oportunidade para alguém que esteja disposto a não entrar em confronto com os OEMs, alguém que esteja disposto a ficar apenas no software e que, claro, não cobre os olhos da cara pelo sistema.
E, de cabeça, imagino pelo menos dois, talvez três, conforme veremos no próximo post da série.

